PÁRA TUDO, TEMOS UMA EMERGÊNCIA NOVA. Antonio Gil

PÁRA TUDO, TEMOS UMA EMERGÊNCIA NOVA. Antonio Gil

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Depois desta emergência que submergiu a emergência anterior, o clima mudou mesmo e agora emerge a saúde onde antes emergiam as alterações climáticas.

E, com a nova emergência, emergiram mil e um fazedores de gráficos e analistas de estatísticas, cada vez mais submersos na ratoeira de seus números e gráficos.

Entretanto emergem também as tais novas realidades, o ''novo normal'' que pensando bem nem é novo (muito dejà vu) nem é normal: financiamento dos gatos gordos, desemprego e fome para muitos outros.

No fim, terão de cortar mais até no SNS porque - dirão de novo - não há dinheiro. E quem não tem dinheiro - é claro - não deve ter nem vícios nem doenças.

É para isso que servem os emergentes opinadores da nova emergência: para alterarem o clima que permita uma nova austeridade, para que tudo seja ainda pior do que dantes enquanto se diz que nada será como dantes.

As alterações climáticas estão aqui, sim, mas desta vez via vírus. O clima vai mudar muito! entretanto ser-nos-á dito de novo que ''andávamos a consumir acima das nossas possibilidades'' e até da nossa saúde, pois claro.

Mas alegrem-se: teremos fotos do regresso dos flamingos a Veneza, dos golfinhos no Mondego e das sereias de novo no rio Pavia.

E sim, o papel higiénico também voltará ao seu habitat natural: as prateleiras dos supermercados.

E dir-se-á que a tal natureza que andávamos a destruir sem remissão, afinal pode recuperar rapidamente. E pouca gente há-de estranhar essa súbita mudança de discurso.

No conto do flautista de Hamlin, o encantador de ratos apresenta a sua conta aos cidadãos por ter realizado a sua tarefa: livrar a cidade da praga de ratos.

Os endividados recusam-se a pagar-lhe, violando assim o contrato inicial. Então ele rouba-lhes o futuro (as crianças).
Encanta-as com sua música e leva-as para parte incerta. Só regressa uma criança cega (que não pode reconhecer o caminho) e uma criança muda (que não pode descrever o caminho).

As dívidas roubam-nos o futuro, sim. E no caso, o flautista nem teve de nos livrar dos ratos. Aliás, o flautista - há-de constatar-se - trabalha para os ratos. O resto é música.

PÁRA TUDO, TEMOS UMA EMERGÊNCIA NOVA. Antonio Gil