Os dias da Recriação. Antonio Gil 3ºcapítulo: o segundo dia. 3.2 O Primeiro Mandamento de Sigma: não farás macacadas.

Os dias da Recriação. Antonio Gil

3ºcapítulo: o segundo dia.
3.2 O Primeiro Mandamento de Sigma: não farás macacadas.

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Neste ponto parei de escrever e decidi esboçar o cenário: terra e céu a perder de vista, um ribeiro, milhares e milhares de rebentos plantados. Dirigi-me ao segundo piso. E dei as indicações do que pretendia ao chefe de produção:
- atenção: quero dar uma grande noção de profundidade, hã? Toca a perspectivar os talhões de terra e as próprias nuvens. Passo por aqui ás sete da tarde está bem?
- Sim senhor. Tentaremos ter tudo pronto!
Saí dali e dirigi-me à sala do pessoal. Lúcio sobressaía graças a Chimpa que se empoleirara, como sempre no seu ombro. Conversava com o técnico de som enquanto o macaco, com uma habilidade característica da espécie, descascava amendoins, atirando com as cascas para dentro do cesto do lixo com uma pontaria notável.
- Ora ainda bem que vos apanho aos dois. Não, não me refiro a ti, bicho, chôô. Ora bem, presta atenção, Lúcio: vou encomendar projectores a sério e preciso que os instalem segundo este esquema
Ia dar o papel a Lúcio mas Chimpa antecipou-se e roubou-mo das mãos. Por um momento pareceu examiná-lo e logo se pôs a rir de forma irritante. Lúcio pediu-lhe o papel, ele entregou-lho. Dei outra folha a Sá Tenaz e expliquei-me:
- Quanto ao som, é preciso fazer também algumas adaptações: uma das colunas está meia roufenha, vai ser substituída, claro.
- Mas nós sempre fizémos os nossos filmes com o material que temos. –objectou Lúcio
- Ah sim? Pois está na hora de aprendermos a trabalhar como deve ser
- IIIIIIIHHHHHHH IIIIIIIIIIIIHHHHH era Chimpa que soltava as suas gargalhadas histéricas. Fiquei possesso:.
- .E tu- apontei para Lúcio ameaçador- diz lá ao teu macaco que vá gozar com quem ele monta.
- Eh, calma, homem- atreveu-se a dizer Lúcio.- ele nem sequer se estava a rir de si
- Não quero saber, e que fique claro: o mandamento número um aqui é não fazer macacadas..
- SOCORRO, UM MUJAHEDDINE - rematou a Paparara, para gáudio geral- Saí dali no meio dos risos abafados do pessoal e das estridentes gargalhadas do macaco. E pensar que a Éden filmes andava a sustentar esta bicharada toda! Ao chegar ao rés-do chão, dirigi-me aos serviços administrativos e chamei Iva. Quando lhe ia passar a lista de material que escrevinhara, saíram-me do bolso uma série de cascas de amendoím que Chimpa, sem que eu desse conta, aí introduzira
- Ah ah ah!-riu-se Iva com gosto- o Chimpa não perdoa.
- Raio do macaco!- eu ponho-o daqui para fora enquanto o Diabo esfrega um olho. Ofereço-o a um circo que é o sítio ideal para macacos com bichos carpinteiros, ah, se ofereço:
- Calma, senhor Sigma- disse-me ela limpando as lágrimas dos olhos- ah ah ah, desculpe, mas não consigo parar de rir. Oh, mas não fique zangado, ele faz isto a toda a gente, não é nada de pessoal, percebe?
- Claro que não é pessoal, - disse zangado- por acaso você imagina-me a ter questões pessoais com um macaco?
- Ah ah ah.hã? desculpe, senhor, eu não lhe quis faltar ao respeito.
- Já o disse ao macaco vou dizê-lo a si também: não tolero macacadas. Doravante esse é também o seu mandamento número um. Trabalho é trabalho, bolas. Faça-me lá estes telefonemas para que me forneçam as coisas que constam desta lista.
Obedeceu-me sempre resmungando para dentro. Quando, cerca de dez minutos depois, feitas as chamadas, pousou o auscultador, fez menção de voltar à leitura da sua ‘Fêmea Actual’ revista muito popular entre as mulheres. Tive de me impor
Você já viu- chamei-lhe a atenção- o aspecto que dá, a alguém que nos visite, ver a nossa telefonista com uma revista dessas nas mãos?
- Que tem a revista?-perguntou ela encolhendo os ombros- até parece que diz algo que já não se saiba.-disse sempre no mesmo registo indiferente.
- Eu não quero revistas pornográficas aqui, no sítio por onde todos passam- disse para arrumar a questão.
- Pornográfico isto? Pff!-disse a delambida da velha- havia de ver a Garina, ou até a Chavala essas sim, são pornográficas.
- Basta! Nem garina, nem chavala nem sequer a Cuspopolitan, não quero cá esse lixo. E já que não parece ter nada que fazer, vou dar-lhe um trabalho. Quero ver os contratos de trabalho de toda a gente desta Empresa. Ah, e já agora as auditorias que foram feitas até hoje.
- As auditorias? Só houve uma, até hoje.
- Ah sim? Não diga: Aposto que concluíram quarenta por cento do pessoal da Eden filmes se dedica a polir esquinas.
- Acho que o nosso pessoal faz mais o género de polir a napa dos sofás.
- Isto é um escândalo! Não vou sustentar uma coisa dessas!.
- Oh, oh, oh- devolveu-me ela, rindo à Pai Natal- isso é o que disseram todos, o Senhor que se foi incluído.
Nesse momento passava por ali Graciel. Fiz-lhe sinal para que esperasse antes de subir e quando a megera me deu o dossier com os contratos de trabalho, dirigi-me a ele. O elevador já nos esperava. Uma vez lá dentro, perguntei-lhe:
- Por acaso, Graciel, estás a par do tipo de contratos de trabalho que a Empresa tem firmado com os trabalhadores?
- Claro que sim. Há de tudo. Porquê?
- Acho que temos trabalhadores pouco eficazes.
- A má notícia – respondeu-me abrindo a porta do elevador e deixando-me passar- é que a lei não te será favorável se os despedires. A boa notícia é que a mesma lei não te faz nada se os despedires.
Nada como a objectividade. Fomos ambos para o meu gabinete

- Ora bem, rapaz- disse-lhe pousando o Dossier na minha secretária- isto vai ser assim: vou fazer o elenco para o filme. Todo e qualquer pândego excluído do elenco passará a figurante. Que achas?
- Acho bem. De resto isso era coisa que o senhor N’Joy já andava a ameaçar há muito tempo.
- Ah sim? Então é por isso que eles se sentem tão seguros. Isto de ameaçar e não cumprir traz sempre estes resultados.bom, vamos ao trabalho: prevejo que precise, no total, de catorze crianças, sete de cada sexo, duas delas ainda bebés, doze adolescentes, seis de cada sexo, seis mulheres, pelo menos duas já entradotas, e sete homens, três deles do género patriarca.
- Oh Diabo: isso das crianças e dos adolescentes não será fácil. O resto arranja-se.
- Sou todo ouvidos.
- Bom, por razões de afinidade, convém-nos manter no elenco os primos de N.Joy.
- Primos? Ele tem cá família?
- Claro, quem é que não tem? Neste caso refiro-me ao Dani e ao Matateu.
- Dani e ao Matateu, Já tomei nota, depois arranjo-lhes um papel qualquer. Prossigamos.
- Devíamos também manter o Chimpa.
- Porquê? Também é da família de N.Joy?
- Quase. Mas isto levanta-nos um problema: quem trata dele é Lúcio, de quem pelos vistos tu não gostas nada.
- Não há espiga: mantenho o Lúcio mas despromovo-o. Ponho-o a pentear macacos ah ah ah.
- Oh, oh: aí está um problema.
- Ah sim? que problema?
- É que a Iva, a nossa contabilista, é mãe dele, Sá Tenaz, nosso técnico de som, é pai dele Pam, a nossa contabilista, é mãe de Iva e logo avó dele, e Helena, a nossa coqueluche, é irmã dele.
- Mas.isto é uma Empresa ou uma Máfia?
- No ponto em que as coisas estão, nenhuma Empresa sobrevive se não for também uma máfia.
- Por falar em família, vamos precisar de crianças? Há alguém que tenha uma catrefa de filhos?
- Esperava que houvesse hoje em dia? Infelizmente não.
- Então como fazemos? Pomos um anúncio no jornal para um casting?
- Não me parece grande ideia, levaria muito tempo, coisa que, como sabe, não dispomos. Não pode reformular o guião de forma a que só haja duas crianças e dois bebés? Se pudesse, eu trazia os meus dois filhos e os meus sobrinhos.
- Hmmm!.porque não? afinal, o meu casal primordial será modernaço.seja, vou pensar nisso. Vamos agora ver o resto. Dás-me agora um tempinho? Obrigado, até já.
Saiu fechando a porta com mansidão. Sentei-me ao computador e escrevi mais um bocado da minha Obra.

Os dias da Recriação. Antonio Gil

3ºcapítulo: o segundo dia.
3.2 O Primeiro Mandamento de Sigma: não farás macacadas.