Os dias da Recriação. Antonio Gil Capítulo dois: a primeira noite, o primeiro sonho: 2.3 Reunião Geral dos Funcionários do Reino dos Céus

Os dias da Recriação. Antonio Gil

Capítulo dois: a primeira noite, o primeiro sonho:
2.3 Reunião Geral dos Funcionários do Reino dos Céus

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Lá apareceram, danados da vida, todos, Serafins, Querubins, Arcanjos, Anjos e Anjinhos do meu Céu, ocuparam os seus lugares do hemiciclo de acordo com a hierarquia e quando os ânimos serenaram, disse-lhes ao que vinha:
- Bem-vindos, meus caros colaboradores, ao Maravilhoso Céu Novo (doravante M.C.N.) ou, se preferirem, ao Palácio Celestial de Sigma ( P.C.S.), ou ainda ao Muito Àparte Hotel (M.A.H.). Enfim, neste caso as designações até nem contam muito, pois já no tempo do velho Senhor, o meu Reino tinha, como sabeis, muitos nomes e os humanos ainda lhe chamavam muitos mais. O que importa é que todos interiorizemos que, doravante, neste Novíssimo Universo de cujos destinos Eu sou timoneiro e vós a tripulação, irá reinar uma Nova Ordem, um conjunto de regras diversas daquelas que até aqui nortearam as vossas pobres vidas. Para começar, e porque não quero ser acusado de fazer distinções, declaro nula a hierarquia que o Outro estabeleceu e determino que passem a ser, a meus olhos, todos iguais.
Um inusitado burburinho se levantou. Um dos anjinhos, um pouco mais atrevido, chegou a dizer, em voz esganiçada:
- era o que faltava, sermos agora todos iguais!
- Quem disse isso?- exclamei indignado- e logo os Meus Olhos pousaram no tipo que, em lugar de se intimidar, ainda se fez mais espevitado.
- Fui eu, Aararel, corneteiro de terceira categoria da décima coorte de intervenção rápida.
- Tu? –indaguei, quase incrédulo- mas tu pertences ao mais baixo escalão de anjinhos que, já por si, estão também no fundo da Hierarquia.
- E daí? - continuou o respondão – o que eu gosto mesmo é de tocar corneta. Tens alguma coisa contra anjinhos que gostam de tocar corneta?.
- Meu caro amigo, para Mim, cada um toca o que gosta, sabe e pode, mas que se gabe de estar na base da hierarquia, é mesmo de anjinho AH AH AH.
Aproveitei o silêncio sepulcral que se gerou para continuar a ditar as Minhas Leis:
- Assunto encerrado, O.K.? a Hierarquia já era, ninguém me vai poder acusar de gostar mais de uns do que de outros, a partir daqui, vocês sentam-se no hemiciclo por ordem alfabética O.K.? e TU!- apontando para o anjinho perturbador- ainda bem que te chamas Aararel, porque vais estar aqui, bem à minha frente, na cadeira número um.
- mas eu é que devia ser o número um, pois chamo-me Aaarel- disse outro anjinho.
- Chamavas-te! Com a nova Revisão Ortográfica deixará de haver vogais triplas.
- Nesse caso, o número um é o Aabaael e não o Aararel .
- Calem-se bolas! Quero lá saber quem é o número um! Vamos lá a sentar por ordem, vá, toca a andar!!!
Grande sururu: não há dúvidas que o hábito cria raízes. Ninguém parecia contente com as mudanças, mas acabaram por se mexer. Ainda os rumores não tinham acabado quando um dos Serafins maiorzitos levantou o braço como que pedindo a palavra. Concedi-lha:
- Meu Senhor, não quero de modo algum parecer insolente, mas pergunto-me se será sensato, numa altura em que temos em mãos um mundo acabado de criar, mexer assim tão bruscamente na nossa estrutura de funcionamento. Note que, por enquanto, as criaturas lá de baixo não são auto-suficientes e, sem um sistema eficaz de distribuição de comida e cuidados, não sobreviverão: No ponto em que a Terra está, não podemos permitir aos herbívoros que comam as árvores e demais vegetais recém-plantados. Por seu lado, os carnívoros, ainda estão na fase da amamentação.
- Como? -perguntei admirado- o mundo não foi logo povoado com espécimes adultos?
- Acha?- respondeu o tipo muito seguro de si- imagina os custos de levar espécimes adultos de pinheiros, sequóias, eucaliptos, cedros etc etc? nem em trinta séculos conseguíamos tais transplantes. Levar rebentos em lugar de troncos significa grandes poupanças nas Viagens intergalácticas!
- Mas pelo menos os animais já podiam ter ido adultos.
- Não me parece- voltou ele a discordar, o pedante- meter a bicharada adulta toda junta seria catastrófico. Assim como assim, levando-os lactentes, é muito mais seguro e eficaz, até em termos de espaço.
- Hmmm! já percebi. Mas não se pode assegurar a alimentação dos espécimes sem essa maldita mania da hierarquia?
- Pode-se tentar, mas, quanto a mim, não neste momento! A rede de assistência que está montada, necessita de diferentes sectores e de quem assuma a responsabilidade por cada tarefa.
- Nesse caso- lembrei-Me, exultante - todos aqueles que estão ligados a essa tarefa, vão continuar a desempenhá-la, da forma que melhor entenderem, a partir lá de baixo.
- A partir lá de baixo?- vamos viver como. mortais?
Expliquei-lhes, pacientemente, o meu ponto de vista:
- Participar da minha Criação não é desprestígio para ninguém: mostrarei que é possível construir um Universo mais harmonioso e justo, organizando as coisas de modo a que ninguém possa ter razões de queixa. E para isso, é preciso criar condições às minha nova humanidade. Que fique claro que, no meu mundo, os humanos não serão entregues à hostilidade do meio, para não desenvolverem em excesso comportamentos agressivos. Ao invés disso, terão trabalho, segurança social, reformas, creches para colocar os filhos e asilos para a terceira idade. Neste novo Universo, não haverá lugar para complexos de culpa, nem pecados pouco originais, castigos biológicos ou químicos, como as sete pragas e outras punições maradas, não haverá heróis sanguinários nem Reis tidos por justos capazes de escolher as suas escravas e escravos por catálogo. Não haverá enfim, arbitrariedade de gostar mais de uns humanos que de outros, para que Caim não volte a ter desculpas para massacrar Abel. É para cumprir esta nobre missão que vos envio lá para baixo, meus amigos, para estardes sempre próximos das populações carenciadas.
Lá foram eles, cabisbaixos mas conformados fazer as malas para partir em direcção às esferas inferiores.

Os dias da Recriação. Antonio Gil

Capítulo dois: a primeira noite, o primeiro sonho:
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