Os dias da Recriação. Antonio Gil Capítulo dois: a primeira noite, o primeiro sonho: 2.2- Sigma assume o controlo das esferas superiores.

Os dias da Recriação. Antonio Gil

Capítulo dois: a primeira noite, o primeiro sonho:
2.2- Sigma assume o controlo das esferas superiores.

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estou pronto a mostrar-lhe o Céu, Senhor Alfa.- ouvi dizer atrás de mim.
Era o Arcanjo Gabriel, um tipo com ar algo jovial, apesar de homem maduro. Segui-o e ao passar no corredor que eu já atravessara, apontou uma das portas e disse-me:
- Nestes quartos estão os nossos hóspedes.
- Se bem entendi, só os eleitos vivem neste edifício...
- Claro que não: os castigados vivem no sector da criadagem...
- Como? Vivem neste mesmo edifício?
- Claro, quem é que achas que trata de mudar os lençóis, servir as refeições, ligar e desligar o aquecimento central etc?...
- Essa agora! Então o paraíso é viver numa espécie de Hotel de cinco estrelas e o Inferno é ser lacaio dos premiados?
- E o senhor Alfa conhece maior paraíso e maior inferno? Repare que não podíamos assegurar uma vida decente aos nossos se eles tivessem de trabalhar. Logo, alguém tem de trabalhar por eles, não acha?
Tinha razão, claro. Por enquanto, Eu ainda era um demiurgo inexperiente, recém iniciado nestas coisas de dirigir um Universo de tais dimensões. Chegámos diante de uma Porta gigantesca, esta de platina, cravejada de relógios de pulso feitos de ligas preciosas. A cerca de cinco metros de altura, uma grande placa dizia, em letras góticas garrafais:

SALA DO TEMPO

Gabriel disse uma qualquer ladaínha e a porta abriu-se pesadamente para mostrar uma desmesurada sala elíptica, completamente forrada de estranhos armários que seguiam a curvatura da parede.
- Neste sector, estão os registos vivos das coisas que já aconteceram...
- vivos?
- Vivos, claro, tal como aconteceram. Se abrir aquela gaveta, por exemplo- disse apontando para uma delas- poderá assistir ao assassínio de César, em directo do Senado de Roma. Já aquela, que lhe está imediatamente abaixo mostra como Bruto, ao contrário do que se pensa, não se suicidou, antes foi vítima de um acidente de trabalho...
- Acidente de trabalho?
- Sim, caíu sobre o próprio gládio:
Dirigimo-nos a um sector de um armário que, ao contrário dos que conhecemos nesta dimensão, possuía gavetas que abriam na vertical, colocadas sobre o tampo. Gabriel digitou num teclado as palavras ‘ab initio’ logo seguida de ‘fuga do Paraíso’ e, para minha surpresa, vi uma destas gavetas abrir-se em direcção ao tecto, formando uma moldura espacial de néon ligeiramente curva dentro da qual foram aparecendo, a três dimensões, primeiro os elementos cénicos (um jardim cheio de árvores de fruto, de flores e animais exóticos) e logo de seguida, as personagens. No canto inferior direito, um relógio de cristal líquido dava-nos a data do que estava a acontecer, constantemente actualizada: oitavo dia 15 h30 m, 43 s, 05 e tal centésimos foi o instante em que a pequena Eva entrou em cena seguida de perto por Adão. Pareciam ambos preocupados:
- Achas que quando Ele voltar vai dar conta das tropelias que andámos a fazer? –perguntou a pequena.
- Referes-te a quê? Fizemos tantas...
- Que lhe vamos dizer? Ele tanto nos pediu que não lhe pisássemos as hortênsias.
- Oh, isso é fácil- gabou-se Adãozito- dizemos que foi o Chimpa. Afinal, não somos os únicos, nesta pasmaceira, que gostam de se divertir...
- E as marcas no chão?
- Fácil: atrai-se lá o macaco
- Como?- perguntou Evita mui céptica.
- Deitamos maçãs, bananas e outras frutas no terreno. O Chimpa há-de ir lá vasculhar aquilo e, com os lindos hábitos que tem, deixará cascas, marcas de dentadas etc...
- Excelente ideia...e depois dizemos que a culpa é do macaco...
- Ah ah ah- riu-se também Adãozito- um dia destes ainda havemos de culpar os macacos até pelo facto de existirmos...
tttttttttttttttttttttttttttttttttttttttttttttttttttttttttttttttttttzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz
Bocejando, Gabriel desligou...
- Se as coisas se passaram desta maneira – observei- isso confirma o que eu já pensava: que os humanos foram deixados na Terra ao deus dará, sem as mínimas condições para um desenvolvimento saudável e harmonioso. ..!
- Por isso é que está deste lado, no sector que nós designamos de F.T.I. (dos Factos Totalmente Irrelevantes). Estes são, como o senhor sabe, a maioria das coisas que ocorrem lá por baixo. Se procurar bem, há-de estar também aí a totalidade da sua vida passada.
- Engraçadinho...
- Oh, não quis fazer humor. Este sector aliás põe-me doente. Por mim, nos tempos livres, quando me quero rir a sério vou para um daqueles sectores ali, que são bem mais divertidos.
- Que sector são esses, então?- perguntei guloso.
- Um, é o S.C.-C.Q.N.A.M.E.C.S.T.A, das Coisas Que não Aconteceram Mas É Como Se Tivessem Acontecido, o outro é o S.C. – T.A.M.V.Q.N.S.F.M.N. Sector das coisas que a Terem Acontecido Mais Vale Que Não Que Se Fale Muito Nelas... quer só ver um trailer destes últimos?
- Já agora...-
- Aqui vai então...ora digitemos ano 45 depois da Criação:
- (vem-se sete rapazes entre os catorze e os dois anos e sete raparigas entre os doze e os quatro. Parecem todos brincar à cabra cega, e efectivamente, o garoto algo desgrenhado de punho no ar que tenta apanhar os outros...
- ah, se caço o tipo que me arrancou os olhos...
- ...eu ‘izia-te se ‘u e ‘issesses ‘em me ‘ortou a ‘onta da ‘íngua...
- diz tu primeiro que eu digo-te quem te cortou a ponta da língua...
- O ‘aim: foi o ‘aim que te a’ancou os olhos para ‘azer ‘ois ‘erlindes. A’ora iz-me: em me ortou a onta da íngua?
- Ah, a tua língua foi o lanche do Tarek, o nosso gato persa- disse muito orgulhosa Rutinha
Nisto aparece Iva, furiosa com a garotada:
- Que é que se passa aqui?
- Mamã, o Caim arrancou-me os olhos.-queixou-se Jacomias
- E o Benfatias cortou a ponta da língua ao Fífias.- acusou logo Abébias.
- O quê? Pergunta a Mãe furiosa- Benfatias! Onde puseste a ponta da Língua de cortaste ao teu irmão??
- a Rutinha deu-de lanche ao Gato – disseram os outros
- A sério? E ele, gostou?
- Lambeu-se todo- disse Rutinha satisfeita...
- E esta? E pensar que tantas vezes nem sei que deitar ao gato...-considerou Eva, num estado entre o pensativo e o maravilhado.
- E os meus olhos mãe? Se não fazes nada, eu seja ceguinho, se não me vingo...
- Qué que fizeste aos olhos do teu irmão, Caim? –perguntou a mãe passando-se da mona – não é que eles sirvam de nada, porque o teu irmão não vê com eles, mas...
- Essa agora- defendeu-se Caim- agora a culpa é minha, queres ver? Eu estava com os dedos abertos e perguntei: quem é capaz de acertar aqui com os olhos. E logo veio este mongo todo lampeiro e zás, quando dei por isso, lá estava eu com os dedos metidos nessa caixa craniana nojenta. Baaark (expressão de nojo)
- Nojento és tu ò seu palhaço- disse o ceguinho- ah mas vais pagar-mas
- A tua sorte é que eu não bato em ceguinhos, palerma!...
- CHEGA!!! PÁREM JÁ!!! SERÁ QUE NÃO PODEMOS TER UM POUQUINHO DE SOSSEGO? UM DIA É PORQUE PARTEM PESCOÇOS, OUTRO PORQUE ARRANCAM OLHOS: ESTOU FARTA DE QUEZÍLIAS E DE QUEIXINHAS...
- E a onta da inha íngua?!?
- A ‘onta da ‘ua ‘íngua ‘omeu-a o ‘ato...responderam todos em estereofonia...

Ttttttttttttttttttttttttttttttttttzzzzzzzzzzzzzzzzzzz Ttttttttttttttttttttttttttttttttzzzzzzzzzzzzzzzzzzz

- Ah ah ah, desculpe lá senhor Sigma, mas isto é tão engraçado...
- Acha?- perguntei duvidando que ele batesse bem da bola.
- Oh, há aqui coisas de fazer um tipo rir durante vários séculos. Ali então, onde se narram certos factos respeitantes a um condado que virou Reino e finalmente República, é um dos meus sítios preferidos...
- Acho que, de facto, não se deve falar muito nisso!- atirei-lhe em tom de aviso...
- Oh, diz isso porque nem imagina certas coisas...
- Imagino, imagino, por isso é que não preciso de saber. Mostra-me outras coisas, Gabriel, que Eu acho que não vou gostar nada deste sector.....
- Seja, o senhor agora é o Patrão. Por um dia, mas Patrão. Pois bem, este sector de que nos estamos a aproximar é o (.N.M. N.P.A.)ou seja o Sector das coisas que Nunca, Mas Nunca, podem acontecer...
- Ha ha!, finalmente um nome simples. E que coisas são essas?
- A primeira de todas é a morte do Senhor, a segunda o afastamento Dele da direcção deste Universo, a terceira a alienação de qualquer um dos Seus vastíssimos poderes...
- Hmmm, estou a ver. Escusado será dizer que esse sector me é interdito...
- Nada disso: se quiser, pode abrir as gavetas, se não gostar do resultado, o problema é seu...
- Se eu abrir uma gaveta, não estou a garantir que o que nunca, mas nunca pode acontecer, acabe por acontecer?
- Sim e não...
- Sim e não? como pode ser sim e não? ou é sim ou é não...
- No seu mundinho, que é muito limitado. Se você abrir uma gaveta das coisas que nunca nunca devem acontecer, sem apagar este Universo, estará a criar outro algures no vasto cosmos...
- Como?
- Simples: no momento em que você abre uma daquelas gavetas, e assim o ordena no teclado, clona um Universo Paralelo
- Ah sim? E Ele, o que foi de férias, pode interferir nesse Universo Paralelo que eu criar?
- Bom isso é uma das coisas que você nunca, mas nunca, pode saber. E agora, senhor Alfa? Quer dar uma voltinha pelo Jardim ou conhecer o resto do pessoal?
- Agora não Gabriel, deixa-me aqui, vou fazer uma breve pesquisa
- Como queira, esteja à vontade...
Mal a porta se fechou, esfreguei as mãos de contente: eis a minha grande oportunidade de criar um Universo só meu. Dirigi-me logo ao sector das coisas que nunca, mas nunca podiam acontecer. Como tudo estava organizado por dias, abri a oitava gaveta do sector titulado Génesis. Aí, num écran ligeiramente curvo, apareceu-me uma lista de coisas que nunca, mas nunca podiam acontecer, sob a forma de alíneas. Estas eram algumas das coisas que constavam dessa lista:

1- Ao oitavo dia, o Criador não voltou do seu sono reparador e...

1.1- a Criação fez um grande chinfrim ( diga as horas que durou esse chinfrim)
1.2- a Criação foi entregue a uma comissão Instaladora (escreva a sigla dessa comissão)
1.3- a Criação nem se apercebeu e continuou a funcionar em regime de auto-gestão (diga como e com que lindos resultados)
1.4- a Criação desapareceu do mapa (diga o que lhe aconteceu)
1.5- a Criação foi entregue a outro Deus (escreva o nome desse deus)

Nem li mais, premi logo a 1.5. e escrevi SIGMA. Apareceu-me então um aviso, escrito em letras de fogo sobre as trevas do écran, dizendo o seguinte:

A realização de um tal evento é impossível de executar, nesta dimensão, pelo que implicará a transferência de toda a realidade existente no Sector Cósmico S.C.-174856934734 à data escolhida (8º dia após a criação) para outra região ainda não povoada por nenhum outro Deus. Tem a certeza que quer abrir um Universo paralelo num outro sector do Cosmos?

Premi a tecla sim e...Apanhei um valente susto pois senti que um enorme turbilhão me desintegrava para me reconstituir algures muito mas muito longe dali, num outro Universo, igual, em tudo, ao nosso, com um planeta igualzinho à Terra, um Céu fotocopiado do outro e uma sala do tempo idêntica, ao mínimo detalhe. Ali estava eu diante de um écran decalcado do outro que, desta vez me me dizia:

A operação ‘clonagem de Universos acaba de ser realizada com êxito. Deseja manter o sector das coisas que nunca, mas nunca podem acontecer aplicadas agora à Sua Pessoa?’

Sim, claro, premi com convicção. Mas o écran continuou a fazer desfilar por ali outras perguntas quanto a manter o Sector SF- C.Q.N.P.P. das Coisas que Ninguém Podia Prever, o sector disto, o sector daquilo e só no fim de uma interminável lista de coisas que achei prudente conservar como estavam, me foi perguntado se queria manter o décor do edifício, bem como o do próprio jardim. Disse logo que não, e comecei a fazer as respectivas alterações, sempre através do teclado. Quando chegou ao capítulo do pessoal, consultei a ficha de todos os trabalhadores e vi as respectivas hierarquias. Por curiosidade chamei Gabriel. Tal como eu pensava ele apareceu pouco depois, igualzinho ao do outro Universo. Eu fá-lo-ia diferente e começaria por lhe alterar o nome: doravante seria Gaby.
- Resultou, Gaby- disse-lhe eufórico-A partir de agora, em vez de tomar conta do Universo do Outro, tenho o meu próprio Universo para cuidar. E o melhor de tudo é que tenho à minha volta um Universo novinho em folha, e um planeta quase por estrear! Nem criados me faltam. Por falar disso, Gabi, meu filho, vais-me buscar um copo de água? Ah! E já agora: convoca por mim uma reunião geral no anfiteatro daqui a ...um minuto Celeste.
- Sim senhor - disse-me ele fazendo-me uma vénia- vou mandar tocar a trompeta das reuniões.

Os dias da Recriação. Antonio Gil

Capítulo dois: a primeira noite, o primeiro sonho:
2.2- Sigma assume o controlo das esferas superiores.