COVID 19 e o Zé Doze Anzóis. Antonio Gil

COVID 19 e o Zé Doze Anzóis. Antonio Gil

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Também tenho uma ''teoria'': o covid-19 sempre cá andou. Passou-se com ele o mesmo que se passou quando te apresentaram o Zé Doze Anzóis: tu só tiveste conhecimento do marmanjo naquele dia mas logo ali percebeste que ele já andava por aí a chatear muita gente antes disso.

O resto da história é conhecida: tu maldisseste a Chica Laceira, que te apresentou o pato-bravo. Mas na verdade a Chica não tem culpa da existência do criaturo: não o pariu nem sequer foi professora dele (mães e professores normalmente são bons alvos para culpar e há sempre uma chusma de gente que concorda com essa culpa original). Ela só te disse que ele se chamava assim e tu te chamavas assado.

Claro que antes de teres tido contacto com ele, não sabes bem o que ele andou a fazer. Na verdade também nunca quiseste - nem agora queres- saber, o que te chateia mesmo é que nalgum ponto da tua vida, ficaste a saber que ele existia e pouco depois ouviste dizer que ele já tinha feito mal a muita gente.

E tu acreditaste nisso, mesmo não o conhecendo senão muito superficialmente e nem sequer conhecendo essas pessoas a quem ele fez mal. Naturalmente, receaste que ele te viesse a fazer mal também. E passaste a evitá-lo.

Na verdade, desde que te foi apresentado, nunca mais o viste (fizeste por isso, lembras-te? até evitaste sair de casa). Mas começaste a ter pesadelos: quando ele te aparecia em sonhos tu até ficavas sem ar.

Depois, começaste a ouvir outras pessoas que disseram que ele não era decerto nenhum santo mas - hey - nada de exageros. Havia muito pior. E passaste a odiar essas pessoas, ou pelo menos a achar que te estavam a tentar enganar.

E evocaste toda a gente que disse cobras e lagartos do homem. E perguntaste com indignação: serão estas pessoas todas mentirosas?

Bom, a questão não é serem essas pessoas todas mentirosas ou não: perguntadas sobre a questão a maioria delas acabou por confessar que sabia muito pouco sobre ele.

Mesmo as que em tempos se mostraram mais seguras do que diziam acabaram por dizer: ah e tal, se calhar tenho de o encontrar mais vezes para tirar algumas conclusões, mas ultimamente até nem o tenho visto muito.

No fundo: essas pessoas sabiam tanto do manata como tu, isto é, quase nada.

Mas quem realmente o quis conhecer a fundo foi chegando a algumas conclusões, que foram as seguinte:

80% das pessoas que se cruzaram com ele nunca tiveram razões de queixa.

Dos restantes, algumas confessaram que ele as irritou um bocadinho. Outras -pouquinhas - entretanto tinham morrido e não disseram nada (os mortos costumam ser muito discretos).

Mas talvez, talvez, seja algo precipitado concluir que ele as matou. Talvez tenha sido outra coisa.

Ou talvez haja mesmo gente que morra de velhice - coisa escandalosa - mesmo que associada a sua morte estejam sempre associadas falhas: cardíacas, pulmonares, falências de outros órgãos.

Parece que com o avançar da idade os órgãos humanos se degradam, deixam de funcionar bem, em suma. Ainda não se descobriu cura nem vacina para isso.

Os nosso avós sabiam que era assim, os bisavós também. Na época deles já chegar aos 60 anos não era pra todos.

Não se fechavam em casa com medo do Zé Doze Anzóis, por causa disso e se algo corria mal diziam: a idade não perdoa. Gente impiedosa, que não valorizava a vida humana certo?

COVID 19 e o Zé Doze Anzóis. Antonio Gil