Génesis segundo Antonio Gil

Génesis segundo Antonio Gil

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Eu é que deveria ter criado o mundo. Ora leiam e vejam lá se não teria sido melhor assim

Não me chatearia se o Génesis tivesse realmente acontecido num qualquer Paraíso Perdido. Antes isso que num bairro da lata ou numa lixeira municipal, claro.

Estabelecido o cenário, creio que num jardim edénico com tanta flor e fauna e tendo de bónus a capacidade de entender toda a bicharada, não me envolveria em grandes conversas com serpentes muito menos sobre maçãs, coisa que nem faz parte da dieta delas.

As serpentes devem saber tanto sobre maçãs como eu sei de engolir pássaros com penas.

Teria de falar primeiro e conhecer a fundo a bicharada toda, antes de confiar em qualquer bicho careta que me desse conselhos dietéticos tipo: ‘’come isto, não comas aquilo’’. E muito menos conselhos desses, vindos de uma serpente, que não come nada que preste.

Preferia também – já que de paraíso de tratava – a que nenhuma mulher me fosse imposta. Tipo a do outro, a do Génesis farsola:
- Não há mais prá escolha ? – imagino sempre o Adão a perguntar
- Também acho – concordaria nisto a Eva – só há esta ‘’espécie de homem’’, nada mais ?
- Já me deu uma trabalheira fazer-vos aos dois – replicaria Deus cansado – é pegar ou largar. Ou se aturam um ao outro ou só vos restarão os primos e as primas macacóides.
- Oh sorte macaca – terá então dito um homem pela primeira vez.

Portanto, para não correr mal como da primeira vez, era bom que os membros do casal tivessem escolhido. Não se esperava que Deus desse um catálogo com fotos e características das pessoas em causa.

O Génesis podia, por exemplo, ter começado com uma festa de arromba. Pelo menos para lhes dar a ilusão de escolherem e serem escolhidas. Não pode ser como se diz que foi, chegar um tipo barbudo com um homem pela mão e dizer a Eva:
- Foi o que se conseguiu arranjar, ou aceitas este marmanjo semi-peludo ou nem pra tia ficas que não tens irmão nem irmãs ah ah ah…

Bom, não foi assim que se diz que aconteceu mas vai dar ao mesmo. O que importa é a sensação da conquista, que não houve. Esta imagem de um primeiro casamento imposto pesaria para sempre sobre os casamentos futuros: a imagem de se estar obrigado a aturar um cônjuge que ninguém sabe bem de onde veio nem porque não se vai embora.

Sim, eu preferia viver solteiro, no Paraíso. Nem seria bem Paraíso se não fosse solteiro, parece-me. Gostaria também que as Evas que fossem minhas coevas tivessem, cada uma delas, o seu paraíso. E que de vez em quando uma - ou mais - me convidasse para um pic-nic deixando-me escolher:
- No teu Paraíso ou no meu?

Génesis segundo Antonio Gil