Os dias da Recriação. Antonio Gil 3º capítulo: o segundo dia. 3.3 Caim, o primeiro homem que se considerou vítima de uma cabala.

Os dias da Recriação. Antonio Gil

3º capítulo: o segundo dia.
3.3 Caim, o primeiro homem que se considerou vítima de uma cabala.

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Está Abel na paz de Sigma, sentado no topo de um grande calhau que por sua vez está também no topo da colina de Jalafui, contando e recontando suas ovelhas e carneiros pelos dedos das mãos e dos pés, ( grande plano, mostrando o pastor em plena actividade contabilística) quando Caim, mano labrego que, por acaso, até plantou as couves tronchas, os bróculos e demais hortaliças que servem de pasto a tão afincados ruminantes passava ali por perto para mondar as ervas daninhas:
- Hã??? Outra vez??? Fora daqui, suas bolas de lã com quatro patas. XÔÔÔÔÔÔÔÔ!!! Ah, não vão lá com palavras, não é?
E vai de pegar num grande pau de marmeleiro para correr com a bicharada fandanga que comia o produto do seu suor: (mostrá-lo a seleccionar o galho, a cortá-lo e aguçá-lo com a navalha de capar porcos e depois a perseguir, já em plano geral, o rebanho que foge, encosta acima, na direcção do seu protector). Abel que, apesar de ter assistido à cena quase impávido estava a mordê-las por dentro, em cena filmada em contrapicado, decide revelar a sua presença:
- Posso saber porque é que os meus bichos não podem pastar nas terras que ambos herdámos?
- Ah, estás aí, mandrião? – devolveu-lhe desdenhoso o pretendente a latifundiário- ainda bem porque vais ouvir umas verdades: Olha lá, seu grande parasita, achas bem que eu tenha desbravado silvados e matas, lavrado, adubado, semeado, regado e mondado as minhas hortas e searas para te engordar a ti por interpostas ovelhas?
- Problema teu- devolveu bocejando Abel- estou farto de te dizer que por mim e pelos meus bichos, até agradecia que não andasses por aí a destruir florestas e pastagens a fazer queimadas prejudiciais ao ecossistema e outros atentados à paisagem natural. Fica sabendo que é por tua causa que, de ano para ano, as minhas ovelhas têm cada vez menos erva e as minhas cabras menos silvados e urtigas para comer. A própria carne dos bichos perdeu qualidade e sabor desde que comem as porcarias que andas a semear.
- Ah, ainda me tratas mal?- disse o labrego de pontiagudo cajado no ar – achavas bem que eu deixasse toda esta terra maninha?
- Maninha é a tua mona ò labrego. Já reparaste na quantidade de terras que lavras e deixas de pousio? Qualquer dia, por este andar, nem o Mundo inteiro te chega.
- Eu não tenho culpa que as terras se esgotem e que seja preciso desbravar cada vez mais: é o preço do progresso.
- O preço do progresso?.ah ah ah, queres convencer quem, com essa? Eu conheço-te ò ganancioso, sou teu irmão, lembras-te? O que tu pretendes, com tanta azáfama e vigilância é reclamar a posse destas terras todas por usocapião. Só que, tens azar porque, se tu o fizeres, eu também o posso fazer.
- E como é que o vais dizer que usas estas terras, ò langão, se tu passas a vida a contar carneirinhos e a tocar flauta? Achas que enganas Sigma? Olha que ele tudo vê e tudo julga.
- muito antes de tu andares para aí a mourejar como um desgraçado, já os meus bichos pastavam nestas terras. Que tu, por teres a mania que és mais esperto, tenhas decidido levar uma vida mui diversa dos nossos antepassados e te mates a trabalhar para comer é problema teu mas isso só prova que o verdadeiro dono destas terras todas sou eu.
- Ah essa é genial, e porquê, já agora?.
- Porque eu me comporto como tal, ao passo que tu te portas como um reles escravo da bicharada toda, desde as gralhas aos ratos de celeiro. Em suma, eu sou dono das terras e as terras, por sua vez, são tuas donas
- Ah, o que te faz falar é a inveja –retorquiu Caim fazendo caretas por estar a falar contra o sol – bem gostarias de comer uma sopita de legumes de vez em quando, não é’ bem gostarias de fazer um puré de lentilhas nos dias de festa, hein? Bem gostarias de ter um celeiro e, sobretudo, uma adega como a minha, com pipos, ânforas e odres cheios de pinga de várias colheitas, ora confessa lá.
- Para quê? – respondeu Abel com desprezo – quando quero enfrascar ou comer uma bucha vendo um borrego e vou á tasca, que é muito mais divertido
- Ah, Vês? É por isso que Sigma, se for justo, não pode gostar de ti: andas a tirar partido da promiscuidade de animais não unidos pelos laços do sagrado matrimónio para sustentar vícios.
- E tu, meu moralista de meia tigela – retaliou Abel- não andas a fazer o mesmo com as plantas? Ou vais dizer-me que as sementes das hortaliças, frutos e cereais são trazidas pela cegonha? Estou farto de gajos como tu, que me passam a vida a dizer que Sigma quer isto, que Sigma gosta daquilo. Por acaso Ele ter-vos-á passado alguma procuração? De resto, se Sigma gostasse de ti e me odiasse a mim explica-me: porque razão eu tenho muito mais sorte na vida do que tu?
- Ah ah ah: em que é que tu tens mais sorte do que eu? É certo que eu dou no duro, mas Sigma tem-me ajudado e em minha casa nada falta, ao passo que tu, que tens tu nesta vida além de um punhado de animais fedorentos? Nem sequer um carro de bois em segunda mão tens..
- Oh, deixemos isso de lado –retrucou Abel despeitado – temos concepções de vida diferentes: o que é bom para ti não é bom para mim e vice-versa. Há porém um e um só assunto em que ambos temos por hábito desejar o mesmo mas eu tenho muuuito mais sorte.
Referia-se a namoradas claro, as garinas curtiam mesmo largo aquele tipo por uma qualquer razão que, para Caim, era absolutamente misteriosa mas que, para Sigma, que tudo vê e tudo julga, não tinha nada que saber: o pastor, ao contrário do semeador de couves, era um gajo viajado e possuía uma perícia digital notável quando tocava flauta, ninguém percebendo muito bem como é que, de olhos fechados, aquelas mãos esguias davam sempre com os orifícios minúsculos da cana de bambu.
- ah, são duras as verdades, não são? Pois olha que isso de andares sempre curvado para a terra não ajuda a engatar miúdas: eu bem te dou bons conselhos, mas tu.ao passo que eu, não é pra me gabar mas é às dúzias.a propósito.sabes quem.- aqui ouve-se, em crescendo, um assobio de míssil: não era nenhum pássaro, nenhum avião, mas o próprio Sigma que, sabendo que o caldo estava prestes a entornar-se, e antes que Abel pronunciasse o nome feminino que levaria Caim a fazer o irreparável, Sigma apareceu disfarçado de enorme extintor e vai de dar uma enorme ensaboadela aos dois manos:.
- Meu filho Caim, agricultor de profissão, meu filho Abel, pastor nas muitas horas vagas – disse através da boca do aparelho, o Todo Potente- Eu, como o vosso Amo & Senhor, atento a tudo o que se passa neste vasto Universo, Gestor de todos os assuntos que envolvem da mais enfezada das amibas à mais avantajada das baleias, não pude deixar de notar que a vossa disputa está a prestes a entrar por mui infortunados caminhos Antes que a coisa descambe e um de vocês acabe por esganar o outro, convido-os a reflectir na razão porque, sendo irmãos e falando a mesma língua, não pareceis capazes de estabelecer um diálogo conducente a um acordo que salvaguarde os interesses das duas partes?
E aqui tudo se precipita: em câmara lenta vê-se Abel levantar-se do rochedo erguendo, com ambas mãos um grande calhau acima da cabeça, disposto a esmagar a estranha aparição que, ameaçadora, pairava entre ambos, virando a boca ora para um lado ora para o outro, de modo a ter sempre ambos sob mira para nova ensaboadela se necessário. No rigoroso instante em que o Pastor está quase a projectar o calhau para a frente, a cena salta de um close das mãos para um close dos pés para que se perceba que o azarado escorregou na água ensaboada e ao estatelar-se no solo, depois de alguns ressaltos no bojo do penedo, leva ainda com o calhau que erguera na pinha. Sigma desaparece tão inusitadamente como apareceu, deixando Caim com um cadáver nos braços. Uma série de mirones surgem como se vindos do nada, procurando saber exactamente o que se passara. Mostrar-se-á um grande plano de todos eles, acotovelando-se para ver o morto:
- É mesmo o Abel, que grande pedrada lhe deste hein, Caim?
- Eu?-protestou o inocente- ele matou-se sozinho..
- Pois, pois! – disse o xerife local- está-se mesmo a ver: levantou a pedra e atirou-a contra a sua própria cabeça. Não tens uma desculpa melhor, rapaz?.
- A sério, xerife Castigusmeus, apareceu-me uma coisa vermelha à frente e.
- Oh, pois, pois, está-se mesmo a ver: foi uma coisa vermelha que te apareceu à frente a responsável pela morte do teu irmão. É sempre a mesma coisa: primeiro fazem as asneiras e depois fingem-se malucos para ver se são dados como inimputáveis.
Voz off: Aos olhos dos que recusam a evidência da fé, poderá parecer que foi crueldade do Criador ter deixado que Caim arcasse com as culpas de um homicídio que de facto não cometeu No entanto, para os outros, os que sabem que nada acontece por acaso, Sigma foi três vezes misericordioso senão vejamos:
a) conseguiu que, de tribunal em tribunal e de juíz em juiz, o processo acabasse por prescrever
b) manobrou as coisas de modo a que Caim reassumisse a posse dos seus bens, herdando também a parte de Abel
c) poupou ao pai das civilizações sedentárias e sua posterior descendência o terrível peso da culpa, permitindo aos futuros acusados justificar hipotéticos actos violentos com a famosa expressão ‘passou-me uma coisa vermelha pela frente’.
Graças à morte acidental de Abel, a humanidade abandonou de vez a vagabundagem fixando-se em povoados de todos os tamanhos e feitios, o que mui facilitou a vida aos cobradores de impostos, polícia e demais autoridades que começaram logo a organizar os seus ficheiros de endereços. Estava pois tudo prontinho para dar início a uma nova Etapa da longa evolução da Humanidade: a das Grandes Civilizações Labregas. Fsdgfhghcvbcvngnjyjkukhjk66666DFF54hk67jkjkjgfawrwttjdadttujukmfaretsdfeargtfdgxvxf(As últimas linhas aconteceram porque adormeci em cima do teclado)
s dias da Recriação. Antonio Gil

3ºcapítulo: o segundo dia.
3.3 Caim, o primeiro homem que se considerou vítima de uma cabala.